Obesidade Infantil

Maus hábitos dos pais resultam em quilos extras nos filhos

Alimentação correta e prática de exercícios físicos dependem do exemplo da família

Ricardo Westin

Matéria do jornal "O Estado de São Paulo".

Caderno Vida, Bem-Estar. Edição de 14 de julho de 2006 - sexta-feira.

Uma pesquisa recém-divulgada pelo IBGE mostrou que, em apenas 30 anos, o número de crianças e adolescentes do sexo masculino acima do peso no País subiu de 4% para 18%. Entre as meninas, o salto foi de 7,5% para 15,5%. A obesidade, já encarada em todo o mundo como epidemia, atinge 6 milhões de jovens brasileiros. A razão desse descontrole na balança das crianças está muito além da gula. A principal raiz do problema são os próprios pais, embora dificilmente eles se dêem conta disso. Características como o gasto de energia, a velocidade do metabolismo e a formação de certas proteínas no organismo passam de geração para geração e interferem no acúmulo de gordura no corpo. Mas a herança genética tem papel pequeno quando comparada com a forma como os filhos são criados. Se os pais são sedentários, dificilmente exigirão que as crianças façam exercício. Se comem mal, os pequenos terão o mesmo hábito. Misturando fatores genéticos e de criação, os cientistas chegaram a duas probabilidades preocupantes: ter o pai ou a mãe acima do peso significa até 50% de risco de o filho ficar gordo; e, se o pai e a mãe forem obesos, a chance é de até 90%. 'São raras as vezes em que a criança fica obesa em conseqüência de alguma doença. Em 95% dos casos, a causa é a mesma: o sedentarismo e a alimentação', afirma a pediatra Lilian Gonçalves Zaboto, coordenadora do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso).

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PRATO LIMPO

Mãe que passa o dia fora tende a trocar afeto por comida, afirma psicóloga

Além de diminuir gorduras e açúcares e aumentar frutas e verduras, pai e mãe precisam ficar atentos ao quanto obrigam os filhos a comer. A mania de exigir que o filho não deixe no prato nem um grão sequer de arroz deve ser abandonada. 'Comer é um ato instintivo. A criança sabe seu limite. E comer pouco não significa que ela gosta menos da mãe', diz Fabio Ancona Lopez, professor de Nutrologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Outro erro é tentar compensar a ausência - por causa do trabalho - com chocolate ou batata frita. 'A compensação ocorre dessa forma porque o alimento proporciona uma satisfação imediata', explica a psicóloga Patrícia Vieira Spada, autora de um trabalho de mestrado a respeito da substituição, feita pela mãe, do afeto pela comida. O excesso de peso por si só é uma doença e provoca uma série de outras complicações de saúde. Quem está acima do peso, independentemente da idade, terá problemas ortopédicos, respiratórios, cardíacos, gastro-intestinais e até dermatológicos. Derrames, enfartes e problemas no colesterol estão se manifestando em pessoas cada vez mais jovens. E doenças crônicas como a diabete 2 e a hipertensão já estão afetando adolescentes e crianças. Os pais normalmente demoram a perceber que o filho está fora do peso ideal. Isso normalmente ocorre quando a criança começa a ganhar apelidos desagradáveis na escola - além da saúde física, a obesidade pode deixar seqüelas psicológicas. Muitos pais acreditam que o filho vai emagrecer quando chegar à pré-adolescência e ganhar altura. 'A obesidade não é um problema que se resolve sozinho', explica o pediatra Lopez, professor da Unifesp. 'Sabemos hoje que o jovem que chega à puberdade obeso tem 80% de chance de se tornar um adulto obeso', acrescenta o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, professor da Unifesp e da Universidade São Marcos. Assim como podem ser culpados pela obesidade dos filhos, os pais e as mães também têm um papel importante no tratamento para perder peso. De acordo com especialistas, é impossível que a criança comece a comer melhor e deixe de ser sedentária se toda a família também não mudar seus hábitos. Ela não vai se sentir motivada a tomar suco no almoço se todos os demais à mesa estiverem tomando refrigerante, por exemplo. Fisberg lembra que prevenir é mais fácil que tratar. 'Pequenas mudanças de hábitos são sempre mais fáceis que grandes mudanças. Quanto mais grave a situação, mais difícil é o tratamento.'

Mãe admite a culpa. E ajuda na recuperação

O estudante Kaique de Moraes tem 13 anos e pesa 70 quilos. É o mesmo peso que ele tinha aos 9 anos. Kaique era uma criança obesa. E a mãe, Sandra Regina de Moraes, de 34 anos, admite que teve culpa. O problema começou quando Kaique tinha 7 anos. Sandra trabalhava fora. De manhã, ele ficava na escola. Passava a tarde toda vendo televisão. À noite, quando chegava em casa, a mãe procurava compensar a ausência com guloseimas. 'Cuidava do jeito que eu achava certo', ela conta. 'Sempre trazia alguma coisa para ele, amendoim, um chocolate, um doce, achando que eu estava agradando, para compensar o fato de ficar o dia inteiro fora.' Quando se deu conta de que o filho estava bem acima do peso, Sandra buscou tratamento. O menino tinha 9 anos. Mas a perda de peso foi provisória. Os 10 quilos perdidos ressurgiram porque, apesar de ter diminuído a comida, Kaique continuou sedentário. Depois, buscou ajuda de uma equipe formada por pediatra, nutricionista, educador físico e psicólogo. Só assim obteve resultado. A mãe também se engajou no tratamento. Passou a comer melhor e a acompanhar o filho nas atividades físicas - os passeios de bicicleta! juntos continuam até hoje. Kaique está nos mesmos 70 quilos desde fevereiro. 'Na escola não me chamam mais de gordinho. É muito melhor ser magro.' R.W.

 

Spas se adaptam para público mirim

O crescimento da obesidade infantil está levando os spas de emagrecimento a se adaptar ao novo público. O Spa Sorocaba, no interior de São Paulo, recebe clientes a partir de 9 anos. Das 50 pessoas internadas no momento, 25 são crianças ou adolescentes. Em Curitiba, o Spa Lapinha aproveitou este mês de! férias escolares para criar a Semana Teen, exclusiva para os mais novos. Médicos, porém, alertam que o tratamento de uma criança obesa não é igual ao de um adulto. Em primeiro lugar, os pequenos não podem tomar remédios. Depois, como estão em fase de crescimento, nenhum tipo de alimento pode ser cortado do cardápio - tudo continua permitido, mas a quantidade fica menor. Além disso, não se podem colocar prazos - perder um certo número de quilos em determinado período -, para não atrapalhar o metabolismo e não levar ao chamado efeito sanfona. 'Chocolate e refrigerante não devem ser proibidos. Podem fazer parte da alimentação, mas de forma responsável', diz o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg. 'Comida não pode ser castigo. Se tira o prazer da comida, você perde um importante aliado no tratamento.' R.W.

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